11.11.12

Identidade e religião no Brasil contemporâneo


Héber Sales

Observar o movimento em torno das religiões no Brasil revela muito sobre os rumos da nossa sociedade plural e misturada. Quem pratica branding hipercultural precisa ficar de olho nos muitos mitos de identidade derivados.

A homogeneidade sugerida pela categoria "evangélico", por exemplo, é uma ilusão. O termo coloca no mesmo balaio projetos tão díspares entre si quanto o blog Bonita Adventista, sobre quem já discutimos no post Branding no mercado de mitos, e o conservador "culto das princesas", que condena as "cachorras"por fazerem sexo fora do casamento.

Sarah Sheeva, ministra do culto das princesas.

Apesar das suas diferenças, há eventos que unem as várias correntes evangélicas. É o caso do filme Três Histórias, um Destino, celebrado nas redes sociais tanto pelos adeptos do missionário R.R. Soares quanto por membros de religiões protestantes mais tradicionais e "esclarecidas". Talvez isso ajude a explicar o fato da película ter estreado tão bem, com uma média de público por sala superior à do novo 007

O cinema brasileiro, aliás, tem funcionado como o altar de todos os santos. Maria, mãe do filho de Deus (2003), filme de viés católico estrelado pelo padre Marcelo Rossi, foi visto por 2,3 milhões de pessoas. Em 2010, dois blockbusters ajudaram a destacar o sucesso do espiritismo no Brasil: Chico Xavier e Nosso Lar.

O avanço desta doutrina no país é outro dado bastante sugestivo para quem estuda a construção de identidades no Brasil contemporâneo. Conforme explica o sociólogo Reginal Prandi, autor do livro Os Mortos e os Vivos, o caráter mais intelectualizado e a ambição científica do kardecismo têm seduzido a classe média mais bem instruída. Curiosamente, a religião atrai também segmentos menos favorecidos da população, que vão até o centro como "clientes" dos praticantes.

No andar de cima ainda, o filósofo Luiz Felipe Pondé observa a adesão da classe média alta paulistana ao que ele chama de "budismo light". O movimento seria uma tentativa - equivocada, segundo Pondé - de se livrar dos ritos e obrigações das religiões mais tradicionais, esforço que, a meu ver, não vem de hoje.

Basta lembrar que a figura do "católico não praticante" é tão antiga quanto os nossos avós e que algumas religiões evangélicas mais tradicionais relaxaram bastante as suas normas de comportamento a partir da segunda metade dos anos 80, período em que o Brasil passou por um processo de redemocratização - a caratice da ditadura parece ter retardado o avanço da revolução de costumes que varreu os Estados Unidos e a Europa nos anos 60.

Leia também: O branding da poderosa

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