3.10.18

Revolução e continuidade na publicidade contemporânea

Héber Sales

Hoje em dia é muito fácil encontrar artigos falando das revoluções pelas quais a linguagem publicitária estaria passando em nossa era digital.

Pois eu vejo muito mais continuidade do que ruptura. Vou dar um exemplo.

Uma doutora da PUC/SP fala de hibridizações como advertainment e o branded content como grandes novidades da era digital.

Não são. Desde o século XIX que a publicidade recorre a outros gêneros de discurso para cativar e envolver a audiência.

Poesia, narrativas breves, cinema, música popular, etc. Lembro-me, por exemplo, desta novelinha que a dupla Neil Ferreira & José Zaragoza, da DPZ, criou para divulgar os cigarros Luis XV nos intervalos da TV.




Por isso, quando eu vejo uma marca qualquer usando a linguagem do meme nas redes sociais, eu não me surpreendo.

A publicidade/propaganda é um gênero de discurso secundário que é muito parecido com o romance num certo aspecto: ela incorpora elementos de muitos outros gêneros, sejam eles do cotidiano, como o diálogo entre as pessoas, sejam eles literários e artísticos, fundindo-os num todo estético.

A respeito do diálogo especificamente, a interação e a proximidade das marcas com as pessoas nas redes sociais confundem muita gente.

Um dia desses ouvi alguém dizer num congresso que, nas mídias sociais, as marcas têm que conversar com as pessoas como o dono da quitanda conversa com os seus fregueses.

Isso é uma meia verdade. Até menos do que meia.

É certo que boa parte do trabalho de um SAC acontece agora nas redes sociais e no WhatsApp.

Por outro lado, conteúdos virais com linguagem coloquial, às vezes no mesmo tom de zoeira da galera, são criações estéticas que seguem a linha do bom e velho humor publicitário que produzia memes no mundo real, com suas tiradas repetidas à exaustão nas rodinhas de amigos.

Tais conteúdos assumem às vezes a forma do diálogo assim como ocorre num romance, num drama, ou na interação de um profissional de stand-up comedy com sua platéia.

Todos esses gêneros incorporam a fala cotidiana, mas integrando-a em um todo estético que possui o acabamento que o discurso cotidiano não tem.

Assim, eu acho que devemos distinguir a interação meramente funcional/utilitária que os consumidores têm nas redes com seus fornecedores e prestadores de serviço daquela interação que se dá em torno de um conteúdo estético, resultado do trabalho de criação publicitária.

Para ir além:

BAKHTIN, Mikhaïl. Os Gêneros do discurso. in Estética da criação verbal. 3ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

CARRASCOZA, João Anzanello. A evolução do texto publicitário. São Paulo: Futura, 2006.

________________________. Estratégias criativas da publicidade: consumo e narrativa publicitária. São Paulo: Estação das Letras, 2014.

VOLOSHINOV, Valentin Nikolaevich; BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Discurso na vida e discurso na arte. Sobre poética sociológica. Trad. do inglês: Carlos Alberto Faraco e Cristovão Tezza, para fins didáticos, 1976.

16.8.18

Publicidade e propaganda, uma atração à parte




Héber Sales

Ano passado, analistas da Forrester declararam o fim da publicidade. Segundo eles, a morte aconteceria porque está cada vez mais difícil interromper com anúncios a experiência dos consumidores. Para os autores, a publicidade será substituída pelo relacionamento.

Para começo de conversa, a publicidade nem sempre interrompe. Pelo contrário, tradicionalmente os profissionais do ramo procuram fazer anúncios coerentes com o contexto.

Por exemplo, na mídia impressa, a publicidade de um garden center em uma revista sobre jardinagem. Na mídia digital, a sugestão de um garden center na região em que o leitor de um blog sobre jardinagem mora.

Em segundo lugar, a publicidade às vezes é uma atração à parte. Por exemplo, o badalado intervalo comercial do Super Bowl ou as campanhas dos patrocinadores (ou não) durante a Copa do Mundo.

Em terceiro lugar, às vezes as pessoas precisam ser interrompidas. Considerem as propagandas antitabagistas, anúncios de seguros e previdência privada, campanhas de vacinação e mesmo o horário eleitoral gratuito.

Em quarto lugar, até gostamos de ser abordados por marcas que admiramos e respeitamos, marcas com quem temos um laço. Óbvio, aqui estou falando da dobradinha publicidade & relacionamento (e não de publicidade vs. relacionamento como os autores do referido relatório).

Finalmente, as pessoas gostam de fazer boas descobertas ao acaso. A serendipidade é em si mesma uma grande experiência. Cabe ao publicitário que as interrompe garantir que tais surpresas, quando se apresentam na forma de anúncios, sejam de fato felizes. Mas isso é o que as boas agências fazem há muitos anos, há décadas, e com rara maestria.

Leia também: Dialogismo e criatividade em publicidade e propaganda

7.7.18

O futuro da publicidade e das agências

Héber Sales


Se existe uma pessoa hoje no Brasil com quem vale a pena conversar sobre o futuro da publicidade e das marcas, essa pessoa é a Gal Barradas. Sempre termino nossos papos com a cabeça a mil, cheia de ideias novas. Foi por isso que decidi gravar essa entrevista com ela para o canal do meu grupo de pesquisa. Aproveitem ;)



11.6.18

Gal Barradas fala sobre semiótica e publicidade

Héber Sales


Há quase dois anos, inaugurei o Grupo de Pesquisa em Semiótica Aplicada à Publicidade e Propaganda (GPSPP), que é certificado no CNPq pelo UNASP, Centro Universitário Adventista de São Paulo.

Além de investigações científicas, desenvolvemos também estudos para o mercado. É nessa fronteira que produzimos conteúdos como esta entrevista com a Gal Barradas, a única mulher entre os 10 publicitários mais admirados do país.

Além de ser uma empresária de destaque, eleita executiva do ano pelo Prêmio ABP em 2016 , Gal tem uma especialização em semiótica pela Universidade de Paris. Ela é uma daquelas pessoas que, com a mesma desenvoltura, fala tanto ao mercado como à academia.

Na primeira parte da nossa conversa, discutimos então sobre como a semiótica pode contribuir para a publicidade e a propaganda.




O papo foi longo. Por isso, dividimos a entrevista em quatro partes. As demais podem ser vistas em nosso canal do GPSPP no Youtube.

6.6.18

As eleições do Whatsapp

Héber Sales


Quando muitos esperavam ver, graças à liberação de anúncios dos candidatos na rede, as eleições do Facebook, eis que descobrimos que a principal arena de luta política no Brasil pode ser outra: o Whatsapp.

A greve dos caminhoneiros, organizada de forma horizontal e viral por meio desse aplicativo, parece ser aquele turning point que faltava.

Enquanto o Congresso Nacional discute leis para barrar a onda de fake news no Facebook, fenômeno que ganhou destaque a partir da campanha de Donald Trump nos EUA, os brasileiros se informam cada vez mais por meio do mensageiro instantâneo.

Nele, é mais difícil detectar a origem de uma fake news.  Isso porque as mensagens que fluem de um ponto a outro são criptografadas e muitos utilizam um número de telefone pré-pago.

O movimento dos caminhoneiros parece ser mais uma evidência de um processo mais amplo de desinstitucionalização e de crise da representação em nossa sociedade (e não apenas nela).

Alheios aos sindicatos, associações e partidos, a categoria se organizou como uma pirâmide de grupos no Whatsapp. Entre eles, fluía livremente demandas de vários níveis, com a voz local ganhando relevância tanto em termos de pauta quanto de liderança.

O Governo Federal ignorou a nova ordem de coisas e se deu mal ao anunciar precocemente o fim de uma greve que continuou por alguns dias mais. Em São Paulo, o governador, assistido por alguns assessores mais antenados, reconheceu a força do Whatsapp e usou um grupo para reunir representantes da citada pirâmide, conseguindo deste modo uma interlocução mais produtiva e consequente.

Fica aí a lição para partidos, políticos e empresas também. Assim como os cidadãos, os consumidores organizam-se nesse novo meio.

Entre os mais jovens, conforme já discuti, o Facebook perde a relevância como fonte de informação. O Instagram, mídia social em que agora consomem mais conteúdo, é por onde se informam cada vez mais sobre produtos e serviços.

Um estudo da Pública, agência de jornalismo investigativo, informa que os jovens estão se afastando de páginas engajadas e interagindo mais com a imprensa tradicional, que usa uma linguagem mais neutra.

No processo, muitos deles, assim como o público mais adulto, usam o Whatsapp para compartilhar notícias e checar informações. E o cidadão está ficando escolado nisso, aprendendo a lidar com as fake news.

5.6.18

Como lidar com as fake news

Héber Sales

O problema das leis que vêm aí contra as fake news é definir o que é uma fake news.

Muitos políticos e governantes, quando se sentem acuados por certas notícias hoje em dia, taxam-nas logo de fake news.

Donald Trump, nos EUA, tem essa mania. Várias vezes, quando a imprensa revela dados que sugerem seu envolvimento com práticas fraudulentas, ele simplesmente responde: é fake news.

O desejo de censurar não é privilégio da direita, lembremo-nos. O governo petista, em vários momentos, pensou em regular mais duramente a mídia e, nos países comunistas de ontem e de hoje, nem a imprensa nem os cidadãos têm direito à livre manifestação.

Por aqui, durante o movimento dos caminhoneiros, Temer e seus assessores fizeram pouco caso de notícias que circulavam no Whatsapp sobre a mobilização da categoria.

Da primeira vez, há alguns dias, erraram. A greve continuou, apesar de terem anunciado seu fim após reunião com representantes dos caminhoneiros que pouco representavam (o movimento se organizava horizontalmente por meio do Whatsapp, como um vírus, sem comando central).

Nos últimos dias, monitoraram a rede mais de perto. Vacilantes, afirmavam ontem que provavelmente não haveria paralisação nesta segunda.

Nos grupos dos quais participo, a troca de informações foi intensa. Havia um esforço coletivo para checar o boato. Depois de conversar com um e com outro, quase ninguém acreditava que haveria uma nova greve.

O cidadão esta ficando escolada em fake news e parece muitas vezes mais esperto do que as autoridades na hora de lidar com elas.

De fato, as buscas por "o que é fake news" explodiram no Google desde outubro/2017, o que sugere que o melhor antídoto contra as fake news pode ser simplesmente mais news, e não mais governo.

Dia 19/06, na UFU, vou falar um pouco mais sobre esse assunto durante o XI Workshop GELS. Na minha conferência, abordarei "O signo ideológico na era das mídias sociais: fake news, pós-verdade e plurilinguismo".

Leia também: As eleições do Whatsapp

18.5.18

Dialogismo e criatividade em publicidade e propaganda

Héber Sales


Um aviso para começar: este texto é mais um dos spoilers do meu programa de pesquisa sobre publicidade dialógica. Ele é parte de um artigo que estou escrevendo sobre interpretação criadora e consumer insight na pesquisa de propaganda.


Quando nos propomos a estudar o ser humano por meio dos seus discursos, precisamos reconhecer que, dada a natureza potencialmente infinita do sentido, o nosso desafio não reside em identificar os significados universais da experiência humana, abstraídos dos contextos particulares, mas em compreender como nestes a experiência humana adquire um sentido sempre novo.

Bakhtin expressa a diferença de modo bastante próprio ao distinguir necessidade de possibilidade. "Dificilmente se poderia falar de necessidade em ciências humanas. Em termos científicos, aqui só se pode descobrir as possibilidades e a realização de uma delas" (BAKHTIN, 2017b, p.32).

O que se observa, no entanto, é que muitas vezes ocorre nesse campo uma "análise mortificante" do sujeito. Por meio dela se vê o ser humano como sendo "inteiramente determinado em termos causais (sociais, psicológicos, biológicos)" (BAKHTIN, 2017b, p.31). Se tal tratamento se justifica no estudo da nossa existência material, ela é, para Bakhtin, insuficiente para abordar a nossa vida social, cultural e comportamental.

Ao contrário do que ocorre nas ciências naturais, argumenta o filósofo russo, "aqui o cognoscente não faz a pergunta a si mesmo nem a um terceiro em presença de coisa morta, mas ao próprio cognoscível", isto é, a um sujeito (BAKHTIN, 2017c, p.58).

"As ciências exatas são uma forma monológica do saber: o intelecto contempla uma coisa e emite um enunciado sobre ela. Aí só há um sujeito: o cognoscente (contemplador) e falante (enunciador). A ele só se contrapõe a coisa muda. Qualquer objeto do saber (incluindo o homem) pode ser percebido e estudado como coisa. Mas o sujeito como tal não pode ser percebido e estudado como coisa porque, como sujeito e permanecendo sujeito, não pode se tornar mudo: consequentemente, o conhecimento que se tem dele só pode ser dialógico" (BAKHTIN, 2017c, p.66).

Por esse motivo, nas ciências humanas, o critério não deveria ser a exatidão do conhecimento, mas a profundidade da penetração. Neste caso, o conhecimento está voltado para o individual. É o campo das descobertas, das revelações, das inteirações, das comunicações" (BAKHTIN, 2017c, p.58, grifo nosso).

Ora, em uma outra passagem, na página seguinte do mesmo texto, o autor sugere duas importantes implicações de tal tese para o trabalho criativo: "o objeto das ciências humanas é o ser expressivo e falante. Esse ser nunca coincide consigo mesmo e, por isso, é inesgotável em seu sentido e significado" (BAKHTIN, 2017c, p.59).

Em primeiro lugar, a não coincidência do "ser expressivo e falante" consigo mesmo deveria nos prevenir de qualquer interpretação literal do discurso e das ações dos consumidores enquanto sujeitos.

Não coincidir consigo mesmo quer dizer, para Bakhtin, que, ao contrário do que ocorre com as coisas, que são desprovidas de "interior inalienável e não utilizável", há no indivíduo um "núcleo interior "que não pode ser "absorvido, consumido", um núcleo em relação ao qual até o próprio indivíduo, mesmo "ao abrir-se para o outro", "conserva uma distância" (BAKHTIN, 2017c, p.57 e 58).

Assim, entre o eu e o eu-para-mim é impossível existir uma fusão completa. Haverá sempre uma distância entre o que eu sou e a minha posição em relação ao que sou. Mais ainda: o que eu sou não se oferece a mim como um objeto sem consciência e mudo, mas como um outro que me responde. Lembremos: "aqui o cognoscente não faz a pergunta a si mesmo em presença de coisa morta [...], mas ao próprio cognoscível" (BAKHTIN, 2017c, p.58).

Se esse é o caso, a fala do consumidor, isolada do diálogo, seja ele interior ou exterior, deve ser vista com desconfiança. Não podemos tomá-la como a revelação de alguma verdade objetiva e imutável a respeito do indivíduo, mas como parte de um evento social de comunicação, no qual, o sentido do que é dito tem muito mais a ver com a interação, tanto a mais imediata como o mais distante, incluindo aí toda uma teia de campanhas veiculadas e a veicular, do que com o seu comportamento em geral.

Em segundo lugar, como a cada nova réplica, um certo enunciado pode adquirir um novo sentido, podemos entender agora que o dialogismo é o próprio motor da criatividade.

Leia também: Por uma publicidade dialógica.


REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. A ciência da literatura hoje. In: BAKHTIN, Mikhail. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas​. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017a.

________________. Fragmentos dos anos 1970-1971. In: BAKHTIN, Mikhail. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas​. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017b.

________________. Por uma metodologia das ciências humanas. In: BAKHTIN, Mikhail. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas​. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017c.

15.5.18

O consumer insight na pesquisa de propaganda

Héber Sales




A pesquisa de propaganda, segundo Steel (1998), é parte do trabalho do account planning, função que, nas agências de publicidade e propaganda, é responsável por envolver os consumidores em cada uma das etapas do desenvolvimento de uma campanha, desde a criação até a validação de mensagens e peças publicitárias, o que é feito por meio de pesquisas dos mais variados tipos.

A expressão "pesquisa de propaganda" corresponde à primeira etapa do processo, quando os planners procuram reunir informações que possam orientar e estimular o trabalho de redatores, diretores de arte e outros profissionais criativos que atuam nas agências. Nela, a busca por consumer insights ocupa um lugar central. Esse termo, apesar de ser muito usado tanto na literatura acadêmica quanto no mercado, carece de uma definição precisa.

O próprio Steel, por exemplo, não usa a expressão em sua obra, Truth, lies, and advertising, um dos livros mais influentes sobre account planing, o que não quer dizer que ignore o assunto. Pelo contrário, retoma várias vezes as palavras insight e insightful para descrever a essência do trabalho de planejamento em uma agência. Citando um discurso do Bill Bernbach, co-fundador da lendária agência DDB, fala que, na criação de uma campanha, nada é tão poderoso quanto um "insight into human nature" proporcionado pela pesquisa de propaganda conduzida por um planner (STEEL, 1998, p.xiii). Que tal insight deve representar "the truth of a consumer relationship with a product ou category" (p.xiii), indicando não apenas o tipo de mensagem que é relevante para o consumidor, mas também como torná-la distintiva, isto é, incomum, original, inconfundível (p.36). Como resultado, planners podem então apresentar "insightful briefs" para o pessoal da criação (p.140).

Em seu livro, Steel vários insights exemplares. Entre eles, um sobre donos de Porsche, que, no lugar de responderem a perguntas em uma entrevista, preencherem questionários ou debaterem em um grupo focal, foram recrutados para uma tarefa insólita: desenhar o que sentiam sobre os seus carros. O resultado foi curioso. A maioria retratou, do ponto de vista de um motorista, o ambiente percorrido enquanto dirigia - montanhas cortadas por estradas sinuosas, com muitas árvores em volta e o sol brilhando -, em uma clara referência à paixão por pilotar, uma experiência muito diferente daquela reportada pelos usuários de automóveis concorrentes, que desenhavam seus carros como se estivessem vendo-os de fora, destacando aqueles itens que geralmente isolam o motorista do ambiente - confortáveis bancos de couro, detalhes do painel, seu sistema de som avançado, etc. Nenhuma referência portanto ao prazer de dirigir e a fazer parte do paisagem que o bólido atravessa, traços que colocam o Porsche à parte e representam uma verdade profunda sobre o que significa, para seus fãs, ter um carro da marca.

Para gerar insights como esse, não basta coletar e reunir informações. É preciso usar a "imaginação e intuição" em todas as etapas do trabalho, desde quando discutimos os objetivos da pesquisa, "e não apenas na interpretação dos dados", lembra-nos Steel (1998, p.106). A propósito, quanto à peculiaridade da pesquisa de propaganda, Baskin e Pickton (2003) são categóricos: "gerar insights [...] é tocar na 'essência' e não simplesmente um processo de reunir fatos" (p.422). Aqui, a "noção passiva da pesquisa de mercado [tradicional] é substituída por aquela mais ativa do consumer insight" e o planner usa a sua "sensibilidade na interpretação dos dados para oferecer representações sobre os consumidores", as quais irão inspirar a criação (HACKLEY, p.451-452).

Ora, como é possível chegar a tais insights, profundos, relevantes e distintivos? A receita, segundo Steel, pode ser resumida em uma pequena frase que nos lembra de imediato a noção bakhtiniana de exotopia: mantenha-se distanciado do problema, de "fora dele", "desapegado", como um "homem extra-ambiental", pois somente assim você poderá trazer uma perspectiva nova sobre a questão (p.118-119).

Antes de seguirmos adiante, voltemos à ideia de que o insight deve trazer não apenas relevância, mas também distinção à mensagem para dizer que não se trata apenas de uma sugestão isolada de Steel (1998), mas é repetida também por Baskin e Pickton (2003) e aparece de forma muito mais explícita nesta definição de Laughin (2014), que se refere a uma compreensão não-óbvia sobre os consumidores: "[a consumer insight] is a non obvious understanding about your customers, which if acted upon, has the potential to change their behavior for mutual benefit".

Essa frase é importante ainda por nos lembrar do propósito do insight em publicidade e propaganda: trazer resultados também para o anunciante por meio de uma determinada resposta do público às suas mensagens, o que exige, conforme nos lembram Zambardino e Goodfellow (2003), buscar e gerar ideias que atendam aos planos de marketing e às estratégias de negócio do cliente da agência.

Assim, embora muitos insistam que o grande objetivo do account planning seja 'entender os consumidores', o desenvolvimento de consumer insights nessa área envolve uma compreensão aguda da posição e das relações da marca em um dado mercado (BASKIN e PICKTON, 2003, p.420). Não se trata, portanto, somente de 'revelar' uma verdade sobre o consumidor, mas, conforme nos recomenda a publicidade dialógica, de acolher as 'verdades' que os consumidores e outros agentes têm a dizer sobre a marca e o que ela representa.


REFERÊNCIAS

BASKIN, Merry; PICKTON, David. Account planning–from genesis to revelation. Marketing Intelligence & Planning, v. 21, n. 7, p. 416-424, 2003.

HACKLEY, Chris. From consumer insight to advertising strategy: the account planner’s integrative role in creative advertising development. Marketing intelligence & planning, v. 21, n. 7, p. 446-452, 2003.

LAUGHLIN, Paul. Holistic customer insight as an engine of growth. Journal of Direct, Data and Digital Marketing Practice, v. 16, n. 2, p. 75-79, 2014. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1057/dddmp.2014.59>. Acesso em 10/05/2018.
STEEL, Jon. Truth, lies, and advertising: The art of account planning. New York: John, Wiley & Sons 1998.

STONE, Merlin; BOND, Alison; FOSS, Bryan. Consumer Insight: How to Use Data and Market Research to Get Closer to Your Customer. London: Kogan Page Publishers, 2004.


ZAMBARDINO, Adrian; GOODFELLOW, John. Account planning in the new marketing and communications environment (has the Stephen King challenge been met?). Marketing Intelligence & Planning, v. 21, n. 7, p. 425-434, 2003.

10.5.18

Interpretação criadora e consumer insight na publicidade dialógica

Héber Sales


Compartilho a seguir um trabalho em construção. Trata-se da introdução a um texto cujo título é o mesmo que uso neste post.



Este artigo retoma um assunto já abordado de passagem em outro trabalho. Quando escrevi o ensaio “Noções de Publicidade Dialógica: contribuições do círculo de Bakhtin” para o IX Pró-Pesq PP, a noção de “interpretação criadora” não passava de uma nota de rodapé. Agora pretendo trazê-la para o centro do debate sobre a pesquisa e o planejamento de propaganda.

Deparei-me com esse conceito pela primeira vez ao ler A ciência da literatura hoje, artigo escrito pelo filósofo russo no outono de 1970 para publicação na revista Novi Mir. Achei a ideia bastante familiar para quem, como eu, atua no planejamento e criação de campanhas publicitárias. Ora, me questionei, mas não é exatamente isso, uma “interpretação criadora”, o que fazemos quando saímos a campo em busca do tal consumer insight?

Minha experiência como professor de planejamento de propaganda, branding e redação publicitária também pesou. Eu já havia lido algo do tipo nos livros que costumo usar como referência em sala de aula, com outras palavras obviamente.

Uma questão em particular me tocou: a relevância e o papel do intérprete no processo de compreensão do outro. Bakhtin defende naquele trabalho que a interpretação não pode se resumir a olhar o mundo com os olhos de outrem, pois, se fosse o caso, ela seria “uma simples dublagem e não traria consigo nada de novo e enriquecedor” (BAKHTIN, 2017, p. 18).

Ao contrário do que muitos afirmam hoje em dia, ouvir a voz do consumidor, buscar ver o mundo por meio dos seus olhos, com empatia, e atendê-lo docilmente nunca me pareceu o melhor caminho para tornar uma marca ou qualquer outro locutor um interlocutor interessante e revelador. Esta, aliás, é a posição de vários autores que têm escrito sobre a natureza e o papel do consumer insight na publicidade e na propaganda. Apresentá-los-ei neste artigo ainda.

Antes, porém, explicarei em linhas gerais a abordagem bakhtiniana às ciências humanas e o seu método de "interpretação criadora", destacando, entre outros conceitos, as noções de dialogismo, gênero do discurso e exotopia como elementos decisivos no trabalho criativo. Somente depois então, revisarei algumas definições de consumer insight e indicarei qual perspectiva parece-me mais pertinente do ponto de vista de uma publicidade dialógica.


REFERÊNCIA

BAKHTIN, Mikhail. A ciência da literatura hoje. In: BAKHTIN, Mikhail. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas​. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017.

8.5.18

Por uma publicidade dialógica


Dia 25/05, apresento no IX Pró-Pesq PP - Encontro Nacional de Pesquisadores em Publicidade e Propaganda, um primeiro ensaio sobre publicidade dialógica, abordagem inspirada nas ideias do Círculo de Bakhtin. Tenho desenvolvido esse modelo no âmbito do Grupo de Pesquisa em Semiótica Aplicada à Publicidade e Propaganda (GPSPP). O texto completo do ensaio pode ser lido aqui.

Leia também: Por uma netnografia dialógica.